Também eu me lembro de entre os 16 e os 18 acreditar piamente nos méritos de uma carreira de educadora de infância. Foi ideia que se extinguiu antes das provas do acesso à universidade – o instinto maternal, que tinha sido apurado no seio de uma família com inúmeras crianças (ainda de colo) distraiu-me, e quase que me apanhava na curva.
Seguiu-se um curso de poucas convicções - e a partida inevitável para Inglaterra, à procura da academia. Um mestrado. O regresso ao país. Veio um trabalho bem pago, mas carregado de opções políticas que tinham pouco que ver com as minhas. Um terrível desgosto amoroso. A desistência. Inglaterra outra vez, o chamamento da academia num doutoramento. Mais três anos como jornalista, uma opção tomada com traços de ingenuidade pós-moderna, que dita a colagem do sujeito à definição romântica do repórter como relator da verdade. Uma desilusão. Senti que em vez de viver a minha vida, passava os dias a escrever efemeridades sobre a vida dos outros.
Ontem encontrei esta carta de Lincoln Steffens, um dos mais bem sucedidos jornalistas americanos do século XIX, repórter do New York Evening Post. No auge da sua carreira escrevia ao seu melhor amigo estas palavras:
I have no longer any inclination to answer you the moment I receive your letters. It seems so hopeless. You are living your own life out, while I am living that of others, hundreds of others. My thoughts and my feelings, my purposes and desires and doings are of no moments; they hardly engage my own attention, never any protracted reflection. My observations are worth while. Others are the objects of them, so they interest me, -- I can work them over and there is a market for what I say. So I am the spectator. I am not grumbling, mind. But my concern is with anybody but myself, and my life is the life of millions, the Greater New York.
A saída do jornalismo foi um escape ao embrulho de observador passivo e um desejo de fazer parte da acção, noutro papel qualquer. Até ontem eu sentia que todas as mudanças – aos 23, aos 25, e aos 28 - eram fruto da indecisão. Na véspera de mais uma reviravolta tenho a certeza que são resultado da determinação.
[Post inspirado nesta nova habitante da capital britânica. Como é que se contacta esta misteriosa mulher? Bate-se-lhe à porta, aguarda-se um, dois dias, e espera-se que ela diga olá (entre o pousar de um romance e a abertura de mais um catálogo de arte J)]



