Encontram-se numa cave escura da cidade antiga uma vez por ano. Estão lá aquelas duas meninas que trocam de sapatos, um diferente em cada pé, meias às riscas a condizer. À entrada afixaram um cartaz com a pergunta “quantos pinguins vão aparecer hoje?”.
No fundo da sala, uma senhora japonesa recorta críticas que apareceram no jornal de hoje, tesoura na mão, gestos nervosos. O telefone toca uma vez, duas vezes, ela desliga sem conseguir iniciar a conversa. As pessoas à volta dela entreolham-se. Sim, estamos numa cave. O telefone toca outra vez. Ela levanta-se do sofá e sai para a rua, vida e luz lá fora.
Depois entra a freira (será que ela entra para a contagem dos pinguins?) - uma mulher de barba rija, ou um homem com mãos para a tacho? Aquele não é um corpo de mulher. Carrega um pano de cozinha que desdobra para a menina que nunca sai de trás da secretária. “Have a flapjack!”. Um flapjack, o melhor exemplar que ela comeu até hoje. Trocam receitas. Sister Mary is off now, she has some flyering to do.
A menina que nunca sai detrás da secretária tenta sair, mas o telefone toca, e mesmo antes dela ter tempo para dizer hello there, uma cara impaciente alinha-se com o écran do computador dela, e mesmo antes de ela olhar a cara impaciente para reconhecer a existência de mais alguém que precisa de atenção, cai-lhe uma mensagem na mesa, num papelinho escrito, enquanto que a menina da secretária do lado lhe estende um post-it fresco de tinta. Um nome, um número de telefone.
A menina que não sai da secretária marca um número que não é nenhum dos números mencionados no parágrafo anterior. Cinco dígitos de seguida, espaço, três dígitos, espaço, três dígitos. Olha para o lado e diz, tentando bloquear do seu campo de visão a massa de pessoas que esperam por ela, “estou a ligar para aquele rapaz das maçãs”. “Sabes, aquele que escreveu a canção they lived appel-y ever after”. Ela canta a última parte appel-y ever after. O rapaz das maçãs atende o telefone, e ela levanta a cabeça e repara que ele está sentado mesmo à frente dela, estava ali há dez minutos, a cara alinhada com o écrã do computador. Riem-se. Ela pousa o oscultador do telefone no descanso. Tu sabes a minha canção, diz ele. E oferece-lhe uma maçã.
Pasei por eiquí e quixen deixarche un bico, facendo de ponte marítimo dende Galiza para Portugal.
Posted by: Chousa da Alcandra | November 17, 2007 at 10:35 PM